Bruno Rodrigues de Souza
Mona Eugênia das Graças Bastos Aguiar
Janete Capel Hernandes
Juliana Blanquer
Rogério Lourenço de Moraes
‘’O caminho pavimentado da crença, pelo toque e pela visão, conduz o mais diretamente até o coração humano e ao recinto da mente.’’
- Lucretius (c.60 a.C.) De Rerum Natura V, 105-107.
O presente estudo tem como objetivo promover um diálogo entre as referências da psicologia corporal que verificam a importância do toque na promoção de saúde e bem-estar do paciente no contexto da psicoterapia corporal clínica e também oferecer ideias e estudos que compreendem o corpo como o inconsciente visível, a pele e os demais sentidos corporais exercem uma função fisiológica, psíquica e emocional, na vida do ser humano.
Os sentidos estabelecem o contato do mundo interno com o externo, assim pode-se dizer que a forma de percepção, registro e armazenamento das experiências vividas acontecem através da pele e dos demais sentidos corporais. Estas percepções vão moldando o indivíduo. Dilu Aldrighi (2016) concorda quando diz que todas as experiências vividas vão construindo o indivíduo, definindo o corpo como o resultado de suas experiências.
A qualidade dessas experiências e registros, ou seja, se foram positivas ou negativas, mais próximas do prazer ou do desprazer, serão fatores decisivos na modulação desses padrões corporais, emocionais e comportamentais. Pode-se dizer então que o ser humano é definido por seus sentidos e assim fica evidente a ideia de que utilizar o corpo e os registros sensoriais como ferramenta de investigação e mapeamento no contexto da psicoterapia pode ser uma forma de intervenção assertiva no trazer à luz da consciência conteúdos inconscientes, muitas vezes traumáticos e disfuncionais, possibilitando a reprogramação / ressignificação dessas experiências com novos estímulos e registros mais condizentes com a realidade atual do paciente.
Palavras-chave: Saúde; Bem-Estar; Toque; Psicoterapia Corporal; Toque e afeto.
O Dicionário Oxford Languages (2024) define bem-estar como a sensação de segurança, conforto e tranquilidade e/ou um estado de satisfação plena das exigências do corpo e/ou espírito. A Organização Mundial de Saúde define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, não apenas como a ausência de doença ou enfermidade. Assim percebemos que saúde e bem-estar não estão distantes, já que o conceito de qualidade de vida também tem muitos pontos em comum com a definição de saúde. (OMS, 1946)
Quanto à relação corpo e mente, Weigand (2018) em seu livro Grounding e Autonomia diz que, apesar do corpo ser nossa principal forma de viver a matéria e experienciar o mundo, nem sempre ele se faz presente. Isso acontece quando o corpo fica em segundo plano em relação à mente, e daí o relacionamento com o mundo não acontece mais pelo canal do afeto, da espontaneidade, da intuição e do desejo, mas tão somente pela razão, pelo controle e por motivos aleatórios, e com isso a alma vai se distanciando cada vez mais do corpo e da coerência com a singularidade do indivíduo.
A autora afirma ainda que, por mais ausente que o corpo possa estar, ainda sim emite sinais de vida emocional e, se estiver em equilíbrio, este corpo pode tornar-se fonte de prazer, alegria e segurança. Pelo contrário, quando em desequilíbrio, apresenta sintomas de tensões, dores, transtornos e doenças. Essas sinalizações corporais que mesclam mensagens psíquicas e físicas são cada vez mais reconhecidas e investigadas pela psicologia e neurociência. Ressalta a importância da integração entre razão e emoção no processo de saúde e vitalização do corpo a partir dessa aproximação entre o indivíduo e sua essência cheia de vida, espontânea e criativa. (Weigand, 2018)
O filósofo e psicanalista francês Didier Anzieu (1985) desenvolve o conceito do Eu-pele como uma representação do ser durante o seu período de desenvolvimento, e o define como o si mesmo, o Eu que contém conteúdos psíquicos a partir de suas experiências táteis, a partir de toda superfície corporal, a pele. Essas experiências vão diferenciando esse Eu psíquico do Eu corporal. Assim, Didier aponta que o Eu-pele seria uma espécie de pré-Eu, que abre caminhos para que o Eu psíquico se estabeleça. Esse pré-Eu corporal é um precursor do sentimento de identidade pessoal e do senso de realidade que definem o Eu psíquico. (Anzieu, 1985)
Com esses conceitos o autor traz a clareza que um ‘’início do Eu’’ está mais próximo do corpo orgânico, nomeando-o de Eu-pele como uma evolução do Ser rumo às abstrações da linguagem e do Eu psíquico. Quanto ao toque, Guará (2016) revela que nas análises e psicoterapias de orientação reichiana e neo-reichiana é natural o uso do toque e de formas específicas de massagens. Dentre as abordagens, destaca-se a Psicologia Biodinâmica criada por Gerda Boyesen, que aprimorou e desenvolveu a utilização desse recurso.
Quanto ao corpo e a pele, o uso do toque e da massagem na psicoterapia traz uma polêmica, já que historicamente a análise foi direcionada e construída baseada na interação exclusivamente verbal, contudo o autor afirma que para entender os aspectos objetivos e subjetivos presentes no ser e encontrar caminhos integrativos dessas instâncias o corpo, seus acessos e reações representam um recurso valioso para uma investigação mais profunda e integrativa do ser. Diz ainda que são múltiplos os benefícios terapêuticos obtidos com o uso de toque e massagem na psicoterapia, o autor afirma que o método melhora o vínculo com o terapeuta, possibilita o estado de presença plena com as próprias sensações, abre caminhos para conteúdos pré-verbais, proporcionando experiências emocionais, possibilita abertura do paciente para revelar conteúdos mais íntimos e latentes, tem efeito de consolar e acalmar diante de situações estressantes, fortalece o vínculo e confiança no tratamento além de estabelecer um campo de confiança e acolhimento, da capacitação e conduta ética do profissional. (GUARA 2016)
Gerda Boyesen, criadora do método e da Psicologia Biodinâmica, enfatiza a necessidade de uma compreensão que leve em conta os múltiplos níveis de interações presentes na natureza humana, reconhecendo a importância do vínculo, do afeto, do toque e das massagens na prática interventiva no contexto clínico da psicoterapia.
Verificar a importância do toque na promoção de saúde e bem-estar do paciente no contexto da psicoterapia corporal clínica.
Revisão narrativa de literatura, com a utilização de livros, artigos e pesquisas relacionadas ao tema desta pesquisa.
Foram elegidos os seguintes critérios de inclusão e exclusão:
Critério de Inclusão:A seleção ocorreu em três fases e após cada uma delas, os pesquisadores verificaram inclusões e exclusões, buscando consenso entre os resultados. Na fase 1, foi realizada a busca e seleção dos livros e artigos; na fase 2, a leitura dos capítulos necessários para descobrir se o toque na psicoterapia é uma ferramenta terapêutica eficaz; na fase 3, foi construído um quadro com a identificação dos autores e os principais conceitos abordados por cada um, relacionados aos objetivos da pesquisa.
Os autores selecionados estão relacionados no Quadro 2:
| Autor(es) e ano | Conceito 1 | Conceito 2 | Conceito 3 |
|---|---|---|---|
| Dilu Aldrighi 2016 | Experiências de vida como fator estruturante do ser. | O corpo como o resultado de suas experiências. | - |
| Odila Weigand 2018 | Grounding e Autonomia. | O corpo sempre busca a vida. | Corpo em equilíbrio X Corpo em desequilíbrio |
| Volpi e Volpi 2003 / Wilhelm Reich 1897-1957 | Pai da psicologia corporal, base para todas as abordagens corporais. | Energia psíquica e corporal e suas atuações em conjunto. | - |
| Gerda Boyesen 1922 | Inaugurou a abordagem da Psicologia Corporal Biodinâmica | Ferramentas de atuação na Psicologia Biodinâmica | Toque e Massagem Biodinâmica |
| Forlani, 2016 | Registro histórico da massagem | Relação de saúde com a integração corpo-mente-espírito | - |
| Montagu, 1988 | O toque como agente de cura e saúde | Fisiologia da pele | Tato, a raiz de todos os sentidos |
| Beck, Hess e Miller, 2011 | Massagem, uma técnica natural no tratamento da dor | Sessão de massagem como autocuidado e alívio imediato da dor | - |
| Kavaganah, 2010 | Massagem e seu potencial meditativo | - | - |
| Lidell; Thomas, 2002 | A relação da massagem com o bem estar, confiança e alegria | - | - |
| Frederick S. Hammett, 1944 | Pesquisa sobre a relevância do toque e do contato nas taxas de sobrevivência de cobaias | O toque e o contato no desenvolvimento comportamental de cobaias mais suaves e tranquilas | Ausência de toque resulta em cobaias mais temerosas e agitadas |
| Didier Anzieu, 1985 | Termo e conceito Eu-pele | Corpo orgânico como raiz do Eu psíquico | - |
Fonte: elaborado pelos autores (ano)
‘’Vivemos num plano no qual a sutileza do espírito se equilibra instavelmente sobre a pulsação da carne.’’
- Ricardo Guará Amaral Rego
Volpi e Volpi (2003) revelam que a Psicologia Corporal é uma escola humana que busca a compreensão da dinâmica entre o psiquismo (mente) e soma (corpo) e que o objetivo geral da abordagem é a reconexão com a capacidade do indivíduo de regular sua própria energia.
A grande referência de todo e qualquer estudo e trabalho corporal é Wilhelm Reich, médico vienense, pai das terapias corporais e criador da Psicoterapia Corporal. Reich trouxe o corpo como superação da dissociação entre aspectos psíquicos e somáticos e colaborou diretamente com Freud. Após divergências com a psicanálise, investiu seu tempo pesquisando a relação corpo-mente, demonstrando interesse científico sobre como a energia corporal e psíquica atuam em conjunto (Reich, 1897-1957).
Os gestos que remetem ao que hoje identificamos como massagem datam de muitos milênios. Há registros, da utilização do toque, compressão e fricção em fontes do antigo Egito e China, somadas a alguns cosméticos fabricados à época. A arte curativa Ayuverda, Hindu, também combinava massagens com preparos de ervas. Já mais à frente na história, em 400 a.C., Hipócrates descreve que, para um médico, seria de suma importância “saber amassar”, fazendo referência aos tratamentos mais ligados ao toque e à massagem, descrevendo-os como um dos mais finos tratamentos. No Império Romano, Plínio, um naturalista, era submetido regularmente a massagens que o aliviava da asma e Júlio César, que sofria de epilepsia, era massageado para alívio de suas dores de cabeça e nevralgia. (Forlani, 2016) Até certo momento na história nota-se a integração corpo-mente-espírito sendo requisito fundamental para se pensar a saúde, mas isto começa a mudar a o decorrer da Idade Moderna, principalmente no Ocidente. As literaturas que abrangem a massagem como forma de prevenção e tratamento de determinados males começa a ficar mais esparsa e cada vez mais se vê a defesa de uma medicina que separa corpo e mente. Na porção Oriental do planeta, porém, se manteve forte a visão holística dos tratamentos. (Forlani, 2016) A existência desta ampla gama de diferentes formas de utilizar do toque para cura e tratamento tem base cultural em experiências táteis muito cedo na vida, quando pensamos no toque materno e entre os membros da família. A exterogestação, por exemplo, é citada como fundamental para logo após o parto o bebê não perder seu apoio para prosseguir com um desenvolvimento saudável. Assim sendo, o toque da mãe representa apoio e um fundamento sólido na base do contato, significando proximidade, intimidade, distância e abertura. (Montagu, 1988) Fisiologia da pele A pele é como uma borda, uma ponte entre o mundo interior e o ambiente externo, uma super roupagem contínua e flexível, ela envolve todo corpo. É o mais antigo e sensível e extenso de nossos órgãos, nosso primeiro meio de comunicação, o mais eficiente traje protetor. Até mesmo a córnea transparente de nossos olhos é recoberta por uma camada modificada de pele. A pele também se vira para dentro revestindo orifícios como a boca, as narinas e o canal anal. O tato é a origem dos nossos olhos, ouvidos, nariz e boca. Foi o tato que, como sentido, veio a diferenciar-se dos demais, fato esse que parece estar constatado no antigo adágio: Matriz de todos os sentidos. (Montagu, 1988) O tato foi o primeiro sentido a se desenvolver no embrião humano. A pele, desde suas primeiras diferenciações, permanece em íntima conexão com o sistema nervoso central, como se representasse o sistema nervoso externo. Segundo Frederic Wood Jones, anatomista inglês, o médico, filósofo e sábio é aquele que percebe e considera a aparência externa de seus semelhantes como uma análise profunda do sistema nervoso externo e não simplesmente da pele.Segundo a lei embriológica geral, quanto mais cedo se desenvolve uma função fisiológica, mais fundamental provavelmente ela será. (Montagu, 1988)Os gestos que remetem à massagem datam de milênios, com registros de toque, compressão e fricção no antigo Egito e China, e na arte curativa Ayurvédica, Hindu. Hipócrates, em 400 a.C., destacou a importância de “saber amassar”. No Império Romano, Plínio e Júlio César eram regularmente massageados para alívio de condições físicas (Forlani, 2016).
A pele é como uma borda, uma ponte entre o mundo interior e o ambiente externo, uma super roupagem contínua e flexível, ela envolve todo corpo. É o mais antigo e sensível e extenso de nossos órgãos, nosso primeiro meio de comunicação, o mais eficiente traje protetor. Até mesmo a córnea transparente de nossos olhos é recoberta por uma camada modificada de pele. A pele também se vira para dentro revestindo orifícios como a boca, as narinas e o canal anal. O tato é a origem dos nossos olhos, ouvidos, nariz e boca. Foi o tato que, como sentido, veio a diferenciar-se dos demais, fato esse que parece estar constatado no antigo adágio: Matriz de todos os sentidos. (Montagu, 1988) O tato foi o primeiro sentido a se desenvolver no embrião humano. A pele, desde suas primeiras diferenciações, permanece em íntima conexão com o sistema nervoso central, como se representasse o sistema nervoso externo. Segundo Frederic Wood Jones, anatomista inglês, o médico, filósofo e sábio é aquele que percebe e considera a aparência externa de seus semelhantes como uma análise profunda do sistema nervoso externo e não simplesmente da pele.Segundo a lei embriológica geral, quanto mais cedo se desenvolve uma função fisiológica, mais fundamental provavelmente ela será. (Montagu, 1988)
Fisioterapeuta e formada em psicologia pela Universidade de Oslo em 1951, Gerda Boyesen (1922-2005) tem seu primeiro contato com as psicoterapias corporais quando se torna paciente de Ola Raknes (1887-1975), um psicólogo e psicanalista que tinha um contato muito próximo com Wilhelm Reich. Boyesen passou a trabalhar em um hospital psiquiátrico na Noruega, sob supervisão do psiquiatra e psicanalista Trygve Braatoy. Neste período estudou um método inovador de massagem chamado Massagem Neuromuscular, desenvolvido pelo fisioterapeuta Andel Bulow Hansen e, com isso, foi percebendo como esta prática não só ocasionava alívio muscular, mas também afetava conteúdos inconscientes e reprimidos dos pacientes. As práticas do que veio a ser considerado e conhecido mais tarde como Massagem Biodinâmica foram realizadas primordialmente dentro deste mesmo hospital psiquiátrico. Gerda consegue compreender e esquematizar a massagem de acordo com aspectos fisiológicos e psicológicos começando a tecer as primeiras linhas base do que viria a ser a Psicologia Biodinâmica, desestigmatizando, posteriormente, a ideia de que a massagem seria uma técnica antiquada para os cuidados e processos de cura, uma vez que a medicina agora empreendia seus investimentos em sofisticados equipamentos e tecnologias refinadas. (Schenkman, 2016) Segundo o Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica (IBPB): Mais do que um método de tratamento, a Psicologia Biodinâmica é uma visão de mundo em que corpo e mente são elementos de um mesmo organismo. É uma abordagem que integra, de modo sistêmico, técnicas inovadoras de massagem, o toque como meio de comunicação não-verbal, a associação livre de idéias e de movimentos, exercícios mobilizadores e harmonizantes, além de diversas formas de elaboração simbólica a partir da fala, dos sonhos e da imaginação..
Para verificar a importância do toque no contexto da psicoterapia clínica na promoção de saúde e bem estar dos pacientes Montagu (1988) revela que a pele é o órgão mais antigo e extenso do corpo, através dela acontece a identificação do ambiente e a partir dela registramos o mundo externo. A pele e o sentido do tato possuem comunicação direta com o sistema nervoso central através dos neurotransmissores e por essa razão a pele possui memória. Ela registra, ação e reação, quais ações são mais seguras e assertivas e quais geram consequências perigosas ou nocivas e com esses registros transporta a própria memória de suas experiências. (Montagu, 1988) A neurologia define a nível fisiológico o toque como mudanças nos impulsos eletroquímicos. Quando tocados, os neurônios que recebem os estímulos ativam geradores de fracas correntes elétricas, localizados na membrana externa das células nervosas, e também ao longo dos dendritos sensoriais e axônios motores. Os receptores sensoriais da pele, são ativados eletricamente quando estimulados, nas variedades dos toques como pressão, fricção, carícias, vibração entre outros. (Montagu, 1988) Os sinais táteis emitidos pela pele passam pela medula espinhal e daí para região somestésica do cérebro onde, basicamente, estimulam os neurônios do giro pós-central, onde acontecem uma grande quantidade de atividades de integração na interpretação não só de sensações táteis como de muitas outras que se originam dentro e fora do corpo. (Montagu, 1988, p.386) Anzieu (1988) professor de psicologia clínica da universidade de Paris, diz que o meio tem poder de influência na construção psíquica, ele criou o conceito de Eu-pele para explicar o funcionamento do ego indo da pele ao pensamento. O autor diz que parte do psiquismo é adquirida a partir da interação com o meio a partir de como foi a qualidade do registro dos estímulos se foram mais próximos do prazer ou do desprazer. Ele se ancora em Freud, para dizer que as funções psíquicas se desenvolvem a partir do apoio com as funções corporais, em seguida se transpõe ao nível mental. Diz ainda que as funções da pele servem como suporte para o Eu-pele ser o envelope psíquico, para esse autor, o Ego representa a superfície do psiquismo e se constrói a partir das sensações corporais e tem como base a afirmação de Freud de que o Ego é corporal, uma projeção da superfície, a pele e é definido por dois fatores relevantes na experiência corporal: sensações de calor e frio captadas através da pele e as trocas respiratórias concomitantes às trocas epidérmicas. Freud não descreve e nem especifica estas sensações, porém concebe o sentido do tato e toda superfície do corpo como influenciador externo do Ego. O autor finaliza trazendo a relevância da percepção tátil da pele na origem do psiquismo tornando apto a conter conteúdos simbólicos e representativos. (Anzieu 1988.) A respeito da função imunológica da pele, o livro: Tocar - O significado humano da pele, de Ashley Montagu (1988), traz a pesquisa: Ratos e Serenidade, que trata de demonstrar os prejuízos causados pela privação do toque. Esta foi realizada em 1944 pelo anatomista Frederick S. Hammett no instituto Wistar. Hammet estava interessado em descobrir quais seriam os efeitos da remoção total das glândulas tireóide e paratireóide de ratos albinos do plantel geneticamente homogêneo do Instituto Wistar. Após investigar os resultados Hammett dividiu as cobaias em duas colônias. Na primeira colônia apresentou maior índice de mortalidade após a cirurgia. Nesta os ratos não recebiam nenhum tipo de interação, o único contato humano era o que ocorria incidentalmente durante as rotinas de alimentação. Estes animais apresentavam comportamentos de apreensão, timidez e eram altamente sensíveis e, quando apanhados, mostravam-se tensos, resistentes e frequentemente demonstravam raiva, com mordidas constantes. Segundo a descrição de Hammett, “o quadro, como um todo é de alta irritabilidade e tensão neuromuscular constante.’’ Na segunda colônia os ratos eram habitualmente mimados e acariciados e, ao serem manuseados, se apresentavam mansos, afetuosos e descontraídos, não se assustando facilmente. Como constatou Hammett “[...] dão a impressão uniforme de placidez. O limiar de reação neuromuscular a estímulos potencialmente perturbadores é quase que proibitivamente alto.’’ Assim Hammett, concluiu que os ratos mimados e acariciados apresentaram menor índice de mortalidade após a cirurgia de remoção das glândulas em relação aos ratos da primeira colônia, privados de contato. Esse experimento de Hammett traz mais do que apenas uma pista para o entendimento do papel desempenhado pela estimulação tátil no desenvolvimento do organismo, mais a comprovação de que o amistoso manuseio dos animais através do contato e do toque pode ser a diferença fundamental entre a vida e a morte após a remoção de importantes glândulas endócrinas. Esta foi uma descoberta significativa, porém, foi igualmente notória a influência das carícias no desenvolvimento do comportamento de animais mais suaves e tranquilos. A ausência do contato e do toque resultam em animais temerosos e agitados. (Montagu, 1988)
Beck, Hess e Miller (2011) vão ao encontro da pesquisa de Hammett quando dizem que a massagem é uma técnica natural para tratar a dor e aliviar desconfortos, relatando que quanto mais dores as pessoas tendem a sentir, mais elas sentem a necessidade de tocar o local a fim de obter alívio imediato. Do ponto de vista de Kavaganah (2010) o fato de dedicar um tempo exclusivo para si mesmo em uma sessão de massagem, por exemplo, já enuncia a capacidade de esvaziar a mente, relaxar e pausar as preocupações e pressões do dia. Lidell e Thomas (2002) falam sobre como uma boa massagem pode vir a comover todos os níveis do ser, podendo gerar sensações de bem-estar, confiança e alegria. Bem como pode promover mudanças profundas, tanto na postura quanto na expressão facial, isso depende da quantidade de energia liberada durante a sessão. A Massagem Biodinâmica não é uma simples aplicação de técnicas a massas corporais, mas uma relação profunda, como uma conversa não verbal através da presença e do toque e que para isso acontecer é fundamental que o terapeuta esteja presente, em contato e em sintonia com o paciente. (Guará, 2016)
Ainda para Guará (2016) A Massagem Biodinâmica se diferencia de outros tipos de massagem. Ele diz que as massagens habituais estão ligadas à ortopedia, à fisioterapia, e trata de entorses, torcicolos, luxações, dores musculares, problemas articulares e outros distúrbios do aparelho locomotor. Já a Massagem Biodinâmica está vinculada à psicologia e, por isso, é fundamentada na relação entre corpo e mente. Guará evidencia a eficácia da Massagem Biodinâmica como processo interventivo que promove autoconhecimento, exercita a comunicação não verbal e alivia os sintomas de ansiedade, depressão e desvitalização dos pacientes. Ele finaliza frisando que nada substitui a sintonia e o diálogo verbal, em outras palavras, é importante a utilização e conhecimento das técnicas, contudo, cada ser é um infinito particular.
Segundo o dicionário Oxford, afeto é um sentimento terno de afeição por outrem; amizade. Completa ainda descrevendo que há graus de complexidade como paixão, amor e amizade. No texto "O inconsciente" (1915), Freud define o afeto da seguinte forma: "Os afetos e os sentimentos correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sensações".
Desde a mais tenra idade o toque se faz necessário como demonstração do afeto mãe-bebê. Segundo Montagu (1988) o bebê, em seus primeiros dias de vida, vive uma condição considerada como continuação do período intrauterino. Nesse momento há uma grande necessidade do contato de pele com pele, carícias, colo, tentativas por parte da cuidadora de confortar o bebê. Aqui nota-se que o toque exerce papel fundamental para o desenvolvimento do bebê, que percebe o afeto de seus cuidadores através da pele.
O psicanalista e pediatra D. W. Winnicott em sua publicação “O recém-nascido e sua mãe”, de abril de 1964, destaca a importância do bebê ser segurado, manuseado, e como assim, por meio do chamado Holding a criança tem seu desenvolvimento maturacional. Ao falar sobre o processo de segurar o bebê o autor aponta um processo que se inicia com a relação mãe-bebê, mas logo estende-se para ambiente-bebê e também para as demais pessoas que compõem o sistema. Descreve como Para Winnicott, um bebê que não é suficientemente bem segurado pode ter um desenvolvimento atrasado e distorcido, ao contrário do bebê que terá um bom e rápido desenvolvimento emocional. Este foi suficientemente bem segurado.
A Massagem Biodinâmica pode ser encarada como um processo que busca uma reparação das falhas neste manejo materno do Holding. O ambiente terapêutico se torna um espaço seguro e confiável onde o paciente pode reviver traumas, com o objetivo de recuperar seu desenvolvimento emocional, promovendo uma maior integração psicossomática e bem-estar pessoal. Assim sendo, estende aquela relação primordial mãe-bebê, agora, a uma relação analista-paciente. (Cintra, 2016)
O toque ao qual se refere este estudo, está relacionado ao contexto terapêutico quanto ao vínculo, ética profissional e estabelecimento do contato ou sensação satisfatória das reações da pele de outra pessoa ou a própria. Os dados experimentais e de constatação obtidos com animais e com seres humanos, apontam que a privação constante do contato e do tato, sobretudo no primeiro ano de vida, resulta geralmente em inadequações comportamentais futuras.
Pode-se concluir que foi possível realizar os objetivos gerais e específicos propostos nesse artigo. Enuncia-se, através da Psicologia Biodinâmica, que o toque pode ser uma forma de intervenção na psicoterapia que possibilita a emersão de conteúdos inconscientes registrados subjetivamente, muitas vezes disfuncionais para o indivíduo. Nota-se, então, que o toque como ferramenta interventiva pode possibilitar a reprogramação/ressignificação de experiências traumáticas, doloridas e disfuncionais para uma forma mais funcional e condizente com os objetivos e realidade do paciente.
Concluí-se este trabalho de pesquisa e vivenciamos a sensação básica do tato como estímulo vital e necessário para a sobrevivência física, psíquica e emocional do organismo vivo, bem como na promoção de saúde, bem estar e equilíbrio. Destaca-se sugestão de estudos e pesquisas futuras a fim de esclarecer cada vez mais a relação entre mente e corpo, toque e promoção de afeto, saúde e bem estar.
Beck, Hess e Miller (2011) vão ao encontro da pesquisa de Hammett quando dizem que a massagem é uma técnica natural para tratar a dor e aliviar desconfortos, relatando que quanto mais dores as pessoas tendem a sentir, mais elas sentem a necessidade de tocar o local a fim de obter alívio imediato. Do ponto de vista de Kavaganah (2010) o fato de dedicar um tempo exclusivo para si mesmo em uma sessão de massagem, por exemplo, já enuncia a capacidade de esvaziar a mente, relaxar e pausar as preocupações e pressões do dia. Lidell e Thomas (2002) falam sobre como uma boa massagem pode vir a comover todos os níveis do ser, podendo gerar sensações de bem-estar, confiança e alegria. Bem como pode promover mudanças profundas, tanto na postura quanto na expressão facial, isso depende da quantidade de energia liberada durante a sessão. A Massagem Biodinâmica não é uma simples aplicação de técnicas a massas corporais, mas uma relação profunda, como uma conversa não verbal através da presença e do toque e que para isso acontecer é fundamental que o terapeuta esteja presente, em contato e em sintonia com o paciente. (Guará, 2016) Ainda para Guará (2016) A Massagem Biodinâmica se diferencia de outros tipos de massagem. Ele diz que as massagens habituais estão ligadas à ortopedia, à fisioterapia, e trata de entorses, torcicolos, luxações, dores musculares, problemas articulares e outros distúrbios do aparelho locomotor. Já a Massagem Biodinâmica está vinculada a psicologia e, por isso, é fundamentada na relação entre corpo e mente. Guará evidencia a eficácia da Massagem Biodinâmica como processo interventivo que promove autoconhecimento, exercita a comunicação não verbal e alivia os sintomas de ansiedade, depressão e desvitalização dos pacientes. Ele finaliza frisando que nada substitui a sintonia e o diálogo verbal, em outras palavras, é importante a utilização e conhecimento das técnicas, contudo, cada ser é um infinito particular.
Segundo o dicionário Oxford, afeto é um sentimento terno de afeição por outrem; amizade. Completa ainda descrevendo que há graus de complexidade como paixão, amor e amizade. No texto "O inconsciente" (1915), Freud define o afeto da seguinte forma: "Os afetos e os sentimentos correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sensações". Desde a mais tenra idade o toque se faz necessário como demonstração do afeto mãe-bebê. Segundo Montagu (1988) o bebê, em seus primeiros dias de vida, vive uma condição considerada como continuação do período intrauterino. Nesse momento há uma grande necessidade do contato de pele com pele, carícias, colo, tentativas por parte da cuidadora de confortar o bebê. Aqui nota-se que o toque exerce papel fundamental para o desenvolvimento do bebê, que percebe o afeto de seus cuidadores através da pele. O psicanalista e pediatra D. W. Winnicott em sua publicação “O recém-nascido e sua mãe”, de abril de 1964, destaca a importância do bebê ser segurado, manuseado, e como assim, por meio do chamado Holding a criança tem seu desenvolvimento maturacional. Ao falar sobre o processo de segurar o bebê o autor aponta um processo que se inicia com a relação mãe-bebê, mas logo estende-se para ambiente-bebê e também para as demais pessoas que compõem o sistema. Descreve como Para Winnicott, um bebê que não é suficientemente bem segurado pode ter um desenvolvimento atrasado e distorcido, ao contrário do bebê que terá um bom e rápido desenvolvimento emocional. Este foi suficientemente bem segurado. A Massagem Biodinâmica pode ser encarada como um processo que busca uma reparação das falhas neste manejo materno do Holding. O ambiente terapêutico se torna um espaço seguro e confiável onde o paciente pode reviver traumas, com o objetivo de recuperar seu desenvolvimento emocional, promovendo uma maior integração psicossomática e bem-estar pessoal. Assim sendo, estende aquela relação primordial mãe-bebê, agora, a uma relação analista-paciente. (Cintra, 2016)
O toque ao qual se refere este estudo, está relacionado ao contexto terapêutico quanto ao vínculo, ética profissional e estabelecimento do contato ou sensação satisfatória das reações da pele de outra pessoa ou a própria. Os dados experimentais e de constatação obtidos com animais e com seres humanos, apontam que a privação constante do contato e do tato, sobretudo no primeiro ano de vida, resulta geralmente em inadequações comportamentais futuras. Pode-se concluir que foi possível realizar os objetivos gerais e específicos propostos nesse artigo. Enuncia-se, através da Psicologia Biodinâmica, que o toque pode ser uma forma de intervenção na psicoterapia que possibilita a emersão de conteúdos inconscientes registrados subjetivamente, muitas vezes disfuncionais para o indivíduo. Nota-se, então, que o toque como ferramenta interventiva pode possibilitar a reprogramação/ressigni ficação de experiências traumáticas, doloridas e disfuncionais para uma forma mais funcional e condizente com os objetivos e realidade do paciente. Concluí-se este trabalho de pesquisa e vivenciamos a sensação básica do tato como estímulo vital e necessário para a sobrevivência física, psíquica e emocional do organismo vivo, bem como na promoção de saúde, bem estar e equilíbrio. Destaca-se sugestão de estudos e pesquisas futuras a fim de esclarecer cada vez mais a relação entre mente e corpo, toque e promoção de afeto, saúde e bem estar.